Em tempos de Olimpíadas, eu sou transportado a distintos momentos, que não necessariamente estão ligados de maneira direta ao evento. Contudo, relacionam-se de algum modo, porque talvez possuam um denominador comum. Este, é a pergunta feita há um tempo, a mim, por uma amiga: “é a copa do mundo, e são eles quem representam o nosso país. Temos que torcer por eles! Onde está o seu patriotismo?!”
Primeiro, apesar de ter crescido no “país do futebol”, sempre fico abismado ao ver patriotismo sendo reduzido à torcida de um jogo, e também ao ver o Brasil sendo colocado apenas como “país do futebol”, quando, por exemplo, o país foi 9 vezes campeão na Liga Mundial de Voleibol. Não poderíamos pensar também em chamar de “país do voleibol”?
Interessante que eu, tantas vezes defensor de diversas pautas para o avanço do país, tive a credibilidade do meu patriotismo questionada ao escolher levantar torcida para outro time. Era um jogo, e era um direito meu: torcer para quem eu sentir que devo, ao invés de forçar-me a torcer porque a cartilha de terceiros impõe desta forma.
Nas olimpíadas de Paris 2024 tenho alternado… às vezes torço para o Brasil, às vezes não, e às vezes torço para todos simultaneamente (eu procedo desse modo na ginástica artística masculina). Contudo, não quero destrinchar sobre isso… vou à outra memória.
No dia 12 de junho, deste ano em que estamos, ocorreu um amistoso antes da Copa América, entre o Brasil e os Estados Unidos. Lá estava eu, na sala de casa, preparando-me para assistir. A emissora estava entrevistando brasileiros que moram em Orlando, local em que ocorreu a competição, e perguntando qual seleção receberia a torcida deles…
Quando a seleção dos Estados Unidos entrou em campo, eu fui surpreendido: eles trajavam uniformes que aludiam ao mês do orgulho Queer, ou seja, o mês em que estávamos, ou seja, junho.
Foi uma cena forte. O mundo esportivo pode ser um local extremamente LGBTIfóbico, e o futebol… o futebol pode ser o pior, ou situa-se entre os piores. Óbvio que mudanças ocorrem, e avanços são sentidos. Contudo, expressar apoio ao Orgulho Queer, e no futebol… Isso é uma raridade, quando não, uma imposição após algum protesto, ou processo realizado em decorrência de algum discurso de ódio.
Foi lindo assistir, e, não preciso falar para quem eu torci. Porque estava diante de duas seleções, e confederações, bem distintas: uma com posicionamentos, e a outra também, com um posicionamento implícito. Esporte não anda distante da política, apesar do que alguns pensam. Ao longo dos anos, assisti times, seleções, e jogadores de outros países posicionarem-se contra a LGBTIfobia. Da seleção brasileira, atual, anteriores, eu desconheço.
Ver as cores do arco-íris nos números dos jogadores foi algo sem comparação. Digo o mesmo sobre os comentários dos brasileiros nas redes sociais. No dia após a partida, ao navegar na internet, vi muitos brasileiros falando: “o problema não é empatar, o problema é empatar com uma seleção que usa essa camisa”. Muitos comentários piores do que o exposto. Como se a menção ao Orgulho Queer retirasse a masculinidade, ou as habilidades dos jogadores, como se eles fossem inferiores por isso.
Naquele momento, eu senti ainda mais que havia torcido certo, e fiz mais, passei a acompanhar a U.S. Soccer nas redes sociais. Pensei naquela amiga perguntando: “onde está o seu patriotismo?!”. Minha mente respondendo: “foda-se esta cartilha de merda, querida! Defendo quem me defende!”. Aqueles que me enxergam como pessoa merecem a minha torcida. Isso é algo que transcende.
Ressalto mais uma vez a minha felicidade com a decisão da U.S. Soccer em relação às camisas, e relembro que cada avanço, mesmo o mínimo, tem o dedo do movimento Queer, com as suas lutas históricas.
Encerro assistindo, e comendo biscoitos, admirando os desempenhos na ginástica artística e natação. Penso nos atletas que não saem do armário por conta do medo de encontrar uma torcida furiosa, e zombo de quem questiona se sou ou não um “patriota”.
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LINKS que você aí do outro lado pode ter interesse em ler:
https://ge.globo.com/futebol/selecao-brasileira/jogo/12-06-2024/estados-unidos-brasil.ghtml
https://www.thepinknews.com/2024/04/04/uswnt-korbin-albert-alex-morgan-lindsey-horan-lgbtq/




